quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Entre a vida e a morte – por dentro dos cuidados paliativos

“Paliativo”, do latim, significa manto, também pode ser aquilo que possui a capacidade de acalmar temporariamente algo, como por exemplo, uma dor.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define como cuidados paliativos aqueles que procuram atender as necessidades de pacientes terminais. Tais cuidados buscam aliviar dores, dar suporte psicológico, espiritual e familiar.

O que fazer quando é dado o diagnóstico de doença terminal? São poucas opções para o paciente sem chances de cura: ele pode permanecer no hospital e ser reduzido a uma sigla: “RHD” – “Regime Higiene-Dietético” (em outras palavras, “banho e comida”); ou voltar para casa, onde não terá assistência e irá esperar por sua morte.

Não há mais o que fazer pelo paciente. No entanto, alguns médicos apelam para procedimentos invasivos e dolorosos, buscando prolongar a vida a qualquer custo. É nessa hora que os médicos paliativistas podem entrar em ação. Ao invés de prolongar a vida sem qualidade, esses médicos podem garantir ao paciente uma morte sem dor física, com os sintomas da doença controlados e rodeado por aqueles a quem ama. Nem antecipar a morte nem esticar a vida, mas garantir que se viva até o fim com dignidade, essa é a visão do profissional da área.

As primeiras práticas de cuidados paliativos surgiram na década de 60, em Londres, onde a enfermeira Cecily Saunders criou um hospice (do francês, hospedagem, hospitalidade), para cuidar de doentes que não podiam ser curados. Somente em 1990, que a OMS reconheceu e recomendou a prática.

No Brasil, a primeira clínica a oferecer esse tipo de atendimento foi criada em 1983, em Porto Alegre. Hoje, com 31 pontos de atendimento no país (13 no Estado de São Paulo), o Ministério da Saúde prepara-se para publicar uma portaria com diretrizes para esse modelo de assistência.

Os pacientes desses centros vão aumentando a medida que se perde o preconceito, o medo da morte. Ao invés de “tentar tudo”, esses pacientes optam por viver – por dias ou semanas – com qualidade. Nesse meio tempo podem fazer uma viagem adiada a tempos, comer no restaurante preferido, rever filmes ou apenas beijar quem se ama. Diante da impossibilidade de cura, cabe ao médico um papel muito mais complexo: ele deve cuidar. Maria Goretti Salas Maciel, presidente da Academia Brasileira de Cuidados Paliativos, em entrevista à Revista Época, diz: “Olhamos para a pessoa inteira, e não para uma parte do seu corpo. Precisamos entender não só sua situação clínica, mas suas emoções, suas dificuldades. É preciso entender sua história para ajudá-la a viver a vida da melhor forma possível. Na Enfermaria, a morte é um parto do lado avesso: as médicas são parteiras que, em vez de esperar o tempo de nascer, respeitam o tempo de morrer”.

Para atender às múltiplas necessidades desses pacientes, o Ministério da Saúde prevê a criação de mais enfermarias de Cuidados Paliativos nos hospitais. Atualmente, cada enfermaria conta com uma equipe de médicos, psicóloga, enfermeiras, assistente social, fisioterapeuta e, quando o hospital dispõe, um padre. Cada leito é individual e tem duas camas, uma para o paciente e outra para os visitantes. O processo é vantajoso tanto para o paciente quanto para sua família. Nesse meio tempo, a família começa a aceitar a doença e entende que agora, mais do que nunca, o parente precisa de amor e carinho. E o enfermo consegue viver seus últimos dias da melhor maneira possível, ou seja, com dignidade.


Para saber mais sobre o assunto:

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